quinta-feira, novembro 24, 2005

36 - Só por hoje, estou bem...

Numa das intervenções efectuadas na recente Convenção Nacional das FA , na qual fui participante, levada a efeito em Alcobaça, foi dado a conhecer a partilha que hoje aqui Vos deixo, palavras que são no fundo de todos nós e que nunca ninguém deve guardar para Si, se isolando, ficando deste modo exposto a uma situação que nos empurra para um abismo… Partilhar é óptimo, mas melhor ainda é sabermos que há quem escuta a nossa partilha.

ISOLAMENTO
Pensei em isolar-me quando senti a dor de ter um adicto em casa.
Assim como os adictos se refugiam nas drogas, para não terem de enfrentar a realidade, eu refugiei-me no isolamento, para não encarar o sofrimento, a dor e a luta; mentindo e procurando não ver a terrível realidade que tinha de enfrentar. Eu, precisava de calmantes, precisava de amortecer a dor para conseguir viver. O meu medo, a vergonha, a culpa, a raiva tudo o que iriam dizer de mim, conduziam-me à sombra da solidão.
Eu tinha medo de ser culpabilizado pela educação que tinha dado ao meu filho; julgava ter sido a melhor e afinal… tinha falhado redondamente.
A minha frustração era enorme, tinha depositado tantas esperanças nele, tinha-lhe traçado um futuro promissor e nada disso aconteceu.
A vergonha que eu tinha e sentia naquele tempo de ter um filho toxicodependente
Uma parte da minha vida, grande parte mesmo, tinha desmoronado completamente e eu estava apático, sem vontade de me levantar e começar de novo. Eu estava a afundar-me em auto-piedade e toda a família era arrastada comigo. Eu estava certo no meu sofrimento e todos os outros é que estavam errados, continuava sempre e só a pensar em mim, eu só pretendia fugir à realidade, tal como os adictos o fazem.
Um voz Amiga me chamou a participar nas reuniões. Através das partilhas no grupo comecei a sentir-me menos só. Afinal não era só Eu ! Que sensação de alívio ! Os outros estavam no mesmo barco que eu, e tinham um ar mais feliz, menos tenso, mais alegre. Eram honestos e humildes.
O desespero que eu sentia impedia-me de compreender e avaliar o problema e as minhas responsabilidades. Hoje, já não tenho vergonha de dizer o que sinto, os meus sentimentos de medo, culpa, vergonha, começam a desaparecer.
Começa a recuperação quando começamos a substituir estes sentimentos pela aceitação, humildade, honestidade e vontade de mudar. É a mudança de atitudes que se impõe.
Do isolamento inicial passei a ser solidário. Se eu fui ajudado, porque não ajudar os outros nas mesmas circunstâncias?
À medida que o tempo vai passando eu vejo “os novos” que chegam ás reuniões, os sentimentos que transportam e revejo-me na situação deles. Eu também já fui e já estive assim !
Afinal já dei alguns passos desde o isolamento de antigamente até à serenidade de hoje. Continuo no meu dia-a-dia, vou subindo lentamente, mais um degrau na minha recuperação.
Tenho notado que quando paro não fico no mesmo degrau, pelo contrário, até desço vários, que terei novamente de subir. Conto com o meu grupo, com as partilhas, com as ferramentas e a literatura que me é disponibilizada. Conto também, com um Poder Superior, porque sem Ele, não estaria agora aqui.”

Só por hoje , estou bem
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Um Abraço com Amizade / GW

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